É meu objetivo nesse texto, refletir sobre a dicotomia forma e conteúdo no cinema. Justifico este ensaio, pois, muitas vezes não nos perguntamos de onde vêm o desejo de dicotomizarmos relações como: forma/conteúdo (para o cinema), sujeito/objeto (nas pesquisas) e prática/teoria (na educação). Como se essas relações pudessem ser estabelecida de forma dissociada, somos levados, irrefletidamente e/ou alienadamente, a propor diferenciações entre elas.
No entanto, o que não sabemos é que a busca pela dicotomia nasce na ciência moderna (aqui entenda a ciência praticada nos últimos três séculos e ainda hoje vigente). É por influência da ciência, conhecimento dominante em nossa sociedade, que buscamos estabelecer as dicotomias nas artes, literaturas e até mesmo no cinema.
Como nos diz Boaventura Santos (2006), a dicotomia proposta pela ciência moderna provocou uma ruptura ontológica entre o homem e a natureza, entre o sujeito e o objeto, entre o mental e o material, entre o valor e o fato, entre o privado e o público, entre o natural e o artificial, entre o humano e o animal, entre a forma e o conteúdo. Esses, por conseqüência da dicotomia, se tornaram incomunicáveis mesmo sendo partes de um todo. Nesse sentido, fazer esta reflexão é, portanto, inaugurar a emergência de um nós mais consciente e perspicaz sobre os pressupostos das nossas opções/opiniões, já que, essas são conseqüências das influências da nossa história de vida.
Nessa perspectiva, assumo o risco de dizer que, a distinção entre forma e conteúdo torna-se desnecessária nos dias de hoje, pois, sempre haverá a presença de ambos na constituição de um filme; não pode existir um cinema sem forma e está forma sempre será dotada de um conteúdo. Nesse sentido, compreendo que, a forma constitui a tradução do conteúdo para a tela de cinema, é o modelo (e não molde, como muitas vezes acontece) de expressar implicitamente e/ou explicitamente uma perspectiva da realidade em que vivemos. O conteúdo se constituiria nas mensagens implícitas e/ou explicitas presente no texto cinematográfico, mesmo que às vezes elas estejam mascaradas e/ou dispersas nesse texto.
O conteúdo do filme é conseqüência das influências cotidianas sofridas pelo diretor, elas constituem os contextos de interações e de transações que ele teve com o ambiente social, essas fizeram parte das experiências de vida e formação desse, formando-o como cidadão e cineasta, e, mesmo que de forma inconsciente/alienada, constituem-se em elementos orientadores para as suas construções cinematográficas (JOSSO, 2004).
Assim, mesmo que você diga “não! As coisas não são bem assim”, posso assegurar que sua vida e formação foram marcadas pela mentalidade “dicotômica” da nossa sociedade, razão pela qual opta em suas opiniões pela dicotomia forma/conteúdo. Apesar disso, acredito que essa é uma discussão que não se encerrará tão cedo, e que cabe a nós discuti-la para “solucionarmos” o “problema”. E aí! Existe filme sem conteúdo? Aguardo as opiniões!
“Cachê” de Michel Haneke é um filme impar para o espectador, uma vez que, com imagens quase congeladas e poucos cortes (a edição é muito diferente das produções estadunidenses) mantém o interesse do público em compreender a trama estabelecida pelo diretor. A abertura do filme transgride por alimentar a câmera estática por extensos minutos (coisa rara no cinema atual); naquele momento o diretor estabelece que “você espectador é o observador da privacidade dos Laurent. É a você que será revelado os segredos e omissões de uma história de vida”.
É deste modo, que somos levados a conhecer os arcanos da vida de Georges Laurent; seus preconceitos começam a ser desvendados ao receber o segundo envelope contendo a fita e o desenho de uma criança cuspindo sangue, neste momento ele estabelece quem poderia ser o possível terrorista. A visita a casa de sua mãe (devido a chegada da terceira fita) nos leva a identificar a presença de uma “tragédia” na vida de Georges envolvendo um nome: Majid (nome de imigrante), mas qual drama teria ocorrido na infância? Este segredo começa a ser desvendado no inicio da trama, tendo como estopim a chegada das correspondências “terroristas”.
É sob a égide da lente de Haneke que passamos a conhecer a farsa estabelecia por Georges; este que parecia distinto aos nossos olhos, passa a ser visto como um caluniador e pior sem consciência das conseqüências dos seus atos para com os outros humanos. Coloco humanos, pois, o filme nos retrata a partir da perspectiva de um cidadão francês questões como intolerância, o fascismo e a xenofobia. Para Michel estes valores estão presentes nas pessoas (para o diretor em especial nos franceses), mas não os assumimos por medo, pela necessidade de conservarmos a aparência; como bem destaca o produtor do programa de Georges, em um diálogo com este, sobre a necessidade de omitir os conteúdos da fita. É esta a razão do diretor nos mostrar, mais de uma vez na TV, a violência em que se encontra o mundo pela intolerância entre povos diferentes.
Caché trata da falta de reflexão humana, muitas vezes não nos damos conta que nossas atitudes são reflexos dos valores da sociedade. Os nossos estereótipos e preconceitos de gênero e raça são internalizados por nós, que inconscientemente, acabamos determinando o futuro das pessoas que nos cercam, podendo ou não, reproduzir as desigualdades e o preconceito em nossa sociedade. É sob estas idéias que o autor/diretor deseja que saiamos da inércia para passarmos a refletir nossas condutas para com os outros.
Se nós fossemos pai de um filho com deficiência, e tivéssemos o abandonado logo após o seu nascimento, como interagiríamos num suposto reencontro? E se o reencontro se realizasse quinze anos depois e a criança nem nos reconhecesse como pai? O que fazer? O que sentir? Amar? Odiar? Ou simplesmente ignorar a existência dessa criança? É sobre a tríade Pai, Filho e Diferenças que o filme “As Chaves da Casa”, de Gianni Amélio (2004), nos faz refletir.
O Filme inicia com Gianni (Kim Rossi Stuart) tendo que levar o filho Paolo (Andrea Rossi) para Berlim afim de realizar um tratamento, pois, este não estava tendo efeito sobre o jovem sem a presença do pai. É como se houvesse uma necessidade de uma relação entre filho e pai (que nunca existiu) para a realização da terapêutica. Ao chegar a Berlim, Gianni, que se encontra carregado de preconceitos pelo jovem, surpreende-se ao saber que pode gostar do filho mesmo com limitações que lhe são apresentadas, ainda assim, Gianni tenta lutar contra este novo sentimento ao ponto de recusar a paternidade de Paolo quando indagado por Nicole (Charlotte Rampling).
A dificuldade de Gianni (e bem que poderia ser nossa) em aceitar um filho com deficiência pode ser diversa, mas ressaltarei apenas duas neste blog. A primeira é a morte da esposa (mãe de Paolo) durante o parto e a constatação via médico de que o filho haveria de ter seqüelas quando crescesse, estes fatores o levaram a um ódio pelo menino, ao ponto dele nem sequer ir ver a criança no berçário; a cardinal implicação desse ato impensado foi o estranhamento entre os pares, nem Gianni e nem Paolo se reconhecem como Pai e Filho durante o inicio da trama (mesmo que já tivessem falado a Paolo que seu Pai o viria buscar). A segunda dificuldade, que para mim é a capital, remete ao medo de suas limitações para cuidar de Paolo, Gianni não consegue viver das incertezas, não consegue perceber que apenas o tempo fará com que ele apreenda a lidar com as diferenças, não consegue refletir que o problema não se encontra em Paolo, mas
É sob esta idéia que percebo as minhas (e pode ser sua) limitações para lidar com os diferentes, não se trata apenas de deficientes, mas de qualquer outra pessoa que pense diferente de mim; abrigar o diferente é aceitar as incertezas e dar voz ao que estava adormecido pelos meus valores, é por isso que aparentemente é mais difícil cuidar de Paolo do que de Francesco (filho recém nascido de Gianni), mas ambos são diferentes, ambos darão trabalho para o pai pelo resto de suas vidas, pois, pai sempre achará que terá responsabilidade pelo seu filho.
Outro aspecto que me chamou a atenção no filme foi o Pai exercendo o trabalho de levar filho deficiente ao hospital. Nicole, em conversa com Gianni, ressalta que “os homens costumam a dar o trabalho porco para ser realizado pelas mães, os pais procuram se abster da sua responsabilidade com os filhos”; em uma sociedade ainda machista, mas que se encontra em mudança, não é de estranhar um pai cuidando do filho, entretanto, de um filho com deficiência você já viu quantos? Nesta acepção, acredito que o papel desempenhado socialmente pelo homem e pela mulher encontra-se em crise; na atual conjectura social não é possível aceitar situações de responsabilidade do casal se tornar empreitada de apenas um; homens e mulheres devem apreender a dispor de seu tempo para estarem com os seus filhos, apreendendo e os ensinando a serem humanos.
Enfim posso dizer que, “As Chaves da Casa” trata-se de um filme ímpar, pois, diferente dos melodramas estadunidenses com finais felizes, aqui o final é incerto e propõe reflexão sobre mudanças em nossas subjetividades e identidades, mais que isso, nos propõe que é preciso (e que devemos) aceitar e confiar nas diferenças; temos que apreender a dar as chaves para a diversidade adentrar a nossa casa. Por fim deixou duas perguntas para você leitor e leitora, qual a importância da diferenças na sua constituição como humano? Você daria as chaves para a incerteza? Até a próxima!
Dica para DVD:
Nome: Match Point – Ponto Final
Direção: Woody Allen
Ano: 2005

Meu objetivo ao escrever este texto é refletir as possíveis causas da promoção do terrorismo, para isto, realizarei minhas reflexões baseadas no Filme “Paradise Now” (2005) de Hany Abu-Assad.
Dica para DVD:
Nome: Match Point – Ponto Final
Direção: Woody Allen
Ano: 2005

Neste ensaio pretendo dissertar sobre “Código Da Vinci” (2006), aviso com antecedência que minhas observações sobre o filme são de cunho pessoal, por isso, não quero que você, leitor e leitora, as tome como verdade, já que trata-se de apenas um ponto de vista sobre a película, podendo portanto haver outros múltiplos olhares. O termo mediocridade do título foi utilizado propositalmente, não que eu acredite que o filme tenha sido medíocre, mas o termo burocratização não causaria tanta polêmica quanta palavra mediocridade. Agora posso dar início...
Se Dan Brown tem rítimo para dar e vender na produção de suas obras literárias, não posso dizer o mesmo do Diretor de cinema vencedor do Oscar 2002, Ron Howard (Uma Mente Brilhante), este se mostra um dirigente alinhado ao cinema juvenil e arrasa-quarteirão (blockbuster) de Hollywood ao invés de tentar assumir um cinema transgressor e autoral dentro da academia cinematográfica estadunidense. Ao adotar o modelo blockbuster para a condução do “Código Da Vinci”, o Diretor faz do filme uma caça entre gato e rato, recaindo nas velhas e cansativas perseguições policiais (quer clichê Hollywoodiano pior para o espectador?). Ao fazer isto, Ron Howard minimiza no filme as discussões de cunho supostamente histórico, realizadas no Museu do Louvre e na casa de Sir Leigh Teabing (Sir Ian McKellen), em pró da maximização às perseguições; ao optar por este paradigma cinematográfico, Ron Howard acaba por transformar o “Código Da Vinci”, que tinha tudo para ser interessante, em apenas uma aventura rotineira.
Outro aspecto que para mim prejudicou o filme foram às atuações de Tom Hanks (Robert Langdon) e Audrey Tautou (Sophie Neveu), eles se apresentaram pouco convincente em suas representações, não havendo sintonia entre o casal em diversas tomadas do filme. O próprio Hanks, conhecido por brilhantes interpretações como a do filme “O Naufrago” (2000), virou amador sob a Direção de Ron Howard, criando um Robert Langdon sem iniciativa em quase todo o filme, já Audrey Tautou ainda encontra-se, aparentemente, presa ao personagem do filme “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” (2002), é uma aflição, pois, a menina parecia ter bastante talento, acredito que devemos aguardar outras películas para melhor avaliarmos o seu trabalho.
Apesar dos fracassos de Hanks e Tautou em suas atuações, Sir Ian McKellen (Deuses e Monstros, 1998) manteve o nível de suas representações ao interpretar Sir Leigh Teabing. É deste personagem que parte a melhores falas, além das melhores críticas ao posicionamento da igreja Católica em questões polêmicas; é interessante observar como Ian McKellen assumiu o seu personagem, talvez, tamanha afinidade deva-se ao fato do ator ser assumidamente orientado para homossexualidade, assim ostentar um personagem crítico a igreja de Roma é uma das formas de expressar descontentamento e resistência a postura intransigente da mesma. Outra boa atuação foi de Paul Bettany (Dogville, 2004) que caracteriza com distinção o monge da opus dei Silas, é dele que parte as melhores cenas de tensão no filme.
Por fim, acredito que, a falta de atrevimento de Ron Howard é crucial para a burocracia cinematográfica que foi “O Código Da Vinci” em seus 144 minutos de exibição; se a Direção tivesse sido ousada na criação do filme, talvez, este tornar-se-ia diferente das rotineiras aventuras do verão estadunidense (período de maior lucro nos cinemas dos EUA). Creio que Ron Howard, assim como muito de nós, precisa urgentemente a apreender que transgredir é (re)inventar a sétima arte.
Dica para DVD:
Nome: Três Enterros de Melquiades Estradas
Direção: Tommy Lee Jones
Ano: 2006

Quando assisti Superman – O Retorno (2006), cuja Direção pertence ao Bryan Singer (o mesmo de X – Man o Filme e X – Man II), indaguei-me sobre que pretexto haveria os estadunidenses de ressuscitarem o herói mais poderoso e prestigiado da América do Norte? Que razões diferenciariam os interesses dos mesmos em lançar o Super-Homem de 1978 e o Superman de 2006? É sobre este último questionamento que pretendo desenvolver este breve ensaio no blog “Açaí com Cinema”.
Creio que esta reflexão, se não necessária, ao menos me parece interessante, uma vez que, acredito que o cinema deva ser visto por nós como um espaço de divulgação de valores, ideologias e doutrinas àqueles que o freqüentam. É nesta acepção que proponho fazer esta reflexão sobre as possíveis razões dos lançamentos dos filmes do homem de aço em 1978 e 2006; ressalta-se que somente no Brasil o atual filme foi visto por mais de dois milhões de pessoas. Mas, antes de prosseguir gostaria de avisar de que não pretendo denegrir os filmes do homem de aço, pelo contrário até gosto de Super-Homem I e II, no entanto, pretendo perpetrar uma breve reflexão sobre as influências ou mensagens que os filmes de super-heróis podem provocar indiretamente (ou talvez diretamente) aos espectadores durante a exibição de uma singela sessão.
O superman nasceu no ano de 1939, próximo do início da segunda grande guerra mundial, seu poder transformaram-se ao longo das décadas que se sucederam, mas a imagem de personagem mais forte dos quadrinhos permanece intacta até os dias de hoje; pelo ano do seu nascimento faz-me pensar que não posso tomar a criação do Superman apenas como obra do acaso de desenhistas, pelo contrário, acredito que o Superman reflete e representa o poderio militar estadunidense antes da guerra, o que se reflete na grande explosão em Hiroshima e na grande invasão conhecida como dia “D”; o Superman representa o próprio exército estadunidense, quase imbatível e quase que invulnerável a ações de inimigos, nesta perspectiva, vejo o homem de aço não como apenas uma invenção, mas como um símbolo do poderio militar dos EUA.
No entanto, o que levaria aos estúdios produzirem um filme com este super-herói depois de quase cinco décadas de seu nascimento? Minhas inquietações fizeram-me viajar no tempo e pensar em 1978, ano da estréia do primeiro filme do então Super-Homem, e para ajuizar o lançamento, faço uma breve retrospectiva histórica.
Os anos que antecedem ao lançamento do primeiro filme marcam um período de disputa bélica entre URSS e EUA, conhecido como guerra fria, onde o último funcionava como protetor do mundo diante do perigo vermelho; sob esta ótica, vejo que o homem de aço representava a força militar dos EUA, assim como em 1939, mas acrescenta-se que ele também era a imagem do sonho dos estadunidenses, uma vez que, o Super-Homem era um Semi-Deus em matéria de qualidade pessoal. Deste modo, o homem de aço funcionava como a representação de um país que é solidário, que nunca erra e que está sempre de prontidão para impedir o movimento comunista para o resto do mundo; o superman é a própria caridade com bomba.
Com o desmoronar do socialismo os filmes de Super-Heróis reduziram-se. Assim o Super-Homem ficou a margem do cinema durante quase duas décadas. Mas com o crescimento dos atos terroristas em todo o planeta, em especial o de 11 de setembro, reiniciaram as produções cinematográficas sobre heróis estadunidenses, o que acredito ter influenciado no ressurgimento em 2006 do próprio Superman.
Assistindo ao novo filme, criei uma analogia onde o Superman representa para mim não apenas a proteção dos EUA, mas a de todos os países da Terra; é por isso que o mundo precisa do Super-Homem, já que, França, Inglaterra e outros países desenvolvidos precisam do apoio militar dos EUA para evitar ou criar confrontos entre povos diferentes. Dessa forma, o atual Superman representa o EUA na busca por aniquilar as milícias terroristas em diferentes países, e também como patrocinador militar de outros países afim de destituir grupos terroristas da sua região; é sob esta égide que Superman nos diz que ele ouve tudo, ele sabe de tudo, ele é o próprio DEUS... Ele é EUA.
Assim sendo, tanto Superman I e II, como Superman - Retorno são frutos da construção de uma representação social e histórico que se vê a política cultural dos EUA. A imagem do Superman é o reflexo da nossa dependência (e medo) militar e ideológica aos estadunidenses.
Uma Crítica a Manderlay
É com prazer que escrevo sobre Manderlay de Lars Von Tries; que é para mim, até o presente momento, o segundo melhor filme da temporada paraense de cinema (ainda prefiro Ponto Final de Woody Allen). Inicialmente saliento que considero interessante e agradável ver Lars Von Tries conduzindo o filme com uma câmera na mão, mostrando-nos planos excepcionais, como a cena da menina no caixão ou a cena da tempestade de areia.
No entanto, as marcas estabelecidas no chão como cenário não funcionaram tão bem quanto
Apesar disso, Lars Von Tries com uma linguagem mais digerível que Dogville (o que não é um elogio) discute e problematiza com inteligência a constituição da identidade negra e o conceito de democracia em nossa sociedade. O currículo que construiu a identidade negra é apontado no filme em várias falas
É neste ponto que ressalto a questão da democracia; o que é democracia? Grace nos diz a etimologia da palavra - Governo de Todos, entretanto será que vivemos em um mundo democrático? Ou nós não somos escravo do dinheiro e consequentemente do sistema? Ou para piorar, empregando o ponto de vista de Michael Foucalt, sempre seremos escravos das escolhas que fizermos, uma vez que, o modelo já se encontra consolidado em nossa sociedade, deste modo, só temos a tarefa escolhe-lo ou sermos escolhido por ele.
É nesta perspectiva que Lars nos mostra que o modelo escravagista em Manderlay era democrático, mas sob os óculos das pessoas que constituíam a fazenda, aos olhos de Grace tratava-se do mais puro devaneio e absurdo da natureza humana. Isto é reforçado brilhantemente nos últimos planos quando mostra o Pai de Grace fazendo a sua leitura (que para nós é equivocada) dos fatos. Neste sentido, eu acredito que os valores não estão para serem julgados como superiores e inferiores, mas para serem discutidos e questionados com respeito e igualdade. Grace não perguntou aos negros se eles queriam mudar o sistema da fazenda, apenas impôs por meio da força e da demagogia que a sua democracia era o modelo que eles deveriam adotar na fazenda; quando ocorre o inverso, Grace rejeita a oferta dos negros por achá-la absurda e por fazê-la prisioneira do modelo de Manderlay.
Aqui o filme robustece necessidade das lutas sociais, pois, não adianta Grace tirar os detritos dos olhos dos negros, inicialmente ela deve tirar o seu e deixar que os próprios tirem o seu cisco, já que, só lutando é que se muda de paradigma social. Sendo assim, apesar de Manderlay ser inferior a Dogville, trata-se de um filme eficiente em seus diálogos e condução, pois, Lars Von Tries é sem sombra de duvidas um dos poucos diretores atuais capazes de ousar, produzindo diálogos inteligentes com os seus personagens, acabando por ter uma direção próxima do brilhantismo não reconhecido pela maioria dos espectadores comerciais.
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