
Quando assisti Superman – O Retorno (2006), cuja Direção pertence ao Bryan Singer (o mesmo de X – Man o Filme e X – Man II), indaguei-me sobre que pretexto haveria os estadunidenses de ressuscitarem o herói mais poderoso e prestigiado da América do Norte? Que razões diferenciariam os interesses dos mesmos em lançar o Super-Homem de 1978 e o Superman de 2006? É sobre este último questionamento que pretendo desenvolver este breve ensaio no blog “Açaí com Cinema”.
Creio que esta reflexão, se não necessária, ao menos me parece interessante, uma vez que, acredito que o cinema deva ser visto por nós como um espaço de divulgação de valores, ideologias e doutrinas àqueles que o freqüentam. É nesta acepção que proponho fazer esta reflexão sobre as possíveis razões dos lançamentos dos filmes do homem de aço em 1978 e 2006; ressalta-se que somente no Brasil o atual filme foi visto por mais de dois milhões de pessoas. Mas, antes de prosseguir gostaria de avisar de que não pretendo denegrir os filmes do homem de aço, pelo contrário até gosto de Super-Homem I e II, no entanto, pretendo perpetrar uma breve reflexão sobre as influências ou mensagens que os filmes de super-heróis podem provocar indiretamente (ou talvez diretamente) aos espectadores durante a exibição de uma singela sessão.
O superman nasceu no ano de 1939, próximo do início da segunda grande guerra mundial, seu poder transformaram-se ao longo das décadas que se sucederam, mas a imagem de personagem mais forte dos quadrinhos permanece intacta até os dias de hoje; pelo ano do seu nascimento faz-me pensar que não posso tomar a criação do Superman apenas como obra do acaso de desenhistas, pelo contrário, acredito que o Superman reflete e representa o poderio militar estadunidense antes da guerra, o que se reflete na grande explosão em Hiroshima e na grande invasão conhecida como dia “D”; o Superman representa o próprio exército estadunidense, quase imbatível e quase que invulnerável a ações de inimigos, nesta perspectiva, vejo o homem de aço não como apenas uma invenção, mas como um símbolo do poderio militar dos EUA.
No entanto, o que levaria aos estúdios produzirem um filme com este super-herói depois de quase cinco décadas de seu nascimento? Minhas inquietações fizeram-me viajar no tempo e pensar em 1978, ano da estréia do primeiro filme do então Super-Homem, e para ajuizar o lançamento, faço uma breve retrospectiva histórica.
Os anos que antecedem ao lançamento do primeiro filme marcam um período de disputa bélica entre URSS e EUA, conhecido como guerra fria, onde o último funcionava como protetor do mundo diante do perigo vermelho; sob esta ótica, vejo que o homem de aço representava a força militar dos EUA, assim como em 1939, mas acrescenta-se que ele também era a imagem do sonho dos estadunidenses, uma vez que, o Super-Homem era um Semi-Deus em matéria de qualidade pessoal. Deste modo, o homem de aço funcionava como a representação de um país que é solidário, que nunca erra e que está sempre de prontidão para impedir o movimento comunista para o resto do mundo; o superman é a própria caridade com bomba.
Com o desmoronar do socialismo os filmes de Super-Heróis reduziram-se. Assim o Super-Homem ficou a margem do cinema durante quase duas décadas. Mas com o crescimento dos atos terroristas em todo o planeta, em especial o de 11 de setembro, reiniciaram as produções cinematográficas sobre heróis estadunidenses, o que acredito ter influenciado no ressurgimento em 2006 do próprio Superman.
Assistindo ao novo filme, criei uma analogia onde o Superman representa para mim não apenas a proteção dos EUA, mas a de todos os países da Terra; é por isso que o mundo precisa do Super-Homem, já que, França, Inglaterra e outros países desenvolvidos precisam do apoio militar dos EUA para evitar ou criar confrontos entre povos diferentes. Dessa forma, o atual Superman representa o EUA na busca por aniquilar as milícias terroristas em diferentes países, e também como patrocinador militar de outros países afim de destituir grupos terroristas da sua região; é sob esta égide que Superman nos diz que ele ouve tudo, ele sabe de tudo, ele é o próprio DEUS... Ele é EUA.
Assim sendo, tanto Superman I e II, como Superman - Retorno são frutos da construção de uma representação social e histórico que se vê a política cultural dos EUA. A imagem do Superman é o reflexo da nossa dependência (e medo) militar e ideológica aos estadunidenses.
Uma Crítica a Manderlay
É com prazer que escrevo sobre Manderlay de Lars Von Tries; que é para mim, até o presente momento, o segundo melhor filme da temporada paraense de cinema (ainda prefiro Ponto Final de Woody Allen). Inicialmente saliento que considero interessante e agradável ver Lars Von Tries conduzindo o filme com uma câmera na mão, mostrando-nos planos excepcionais, como a cena da menina no caixão ou a cena da tempestade de areia.
No entanto, as marcas estabelecidas no chão como cenário não funcionaram tão bem quanto
Apesar disso, Lars Von Tries com uma linguagem mais digerível que Dogville (o que não é um elogio) discute e problematiza com inteligência a constituição da identidade negra e o conceito de democracia em nossa sociedade. O currículo que construiu a identidade negra é apontado no filme em várias falas
É neste ponto que ressalto a questão da democracia; o que é democracia? Grace nos diz a etimologia da palavra - Governo de Todos, entretanto será que vivemos em um mundo democrático? Ou nós não somos escravo do dinheiro e consequentemente do sistema? Ou para piorar, empregando o ponto de vista de Michael Foucalt, sempre seremos escravos das escolhas que fizermos, uma vez que, o modelo já se encontra consolidado em nossa sociedade, deste modo, só temos a tarefa escolhe-lo ou sermos escolhido por ele.
É nesta perspectiva que Lars nos mostra que o modelo escravagista em Manderlay era democrático, mas sob os óculos das pessoas que constituíam a fazenda, aos olhos de Grace tratava-se do mais puro devaneio e absurdo da natureza humana. Isto é reforçado brilhantemente nos últimos planos quando mostra o Pai de Grace fazendo a sua leitura (que para nós é equivocada) dos fatos. Neste sentido, eu acredito que os valores não estão para serem julgados como superiores e inferiores, mas para serem discutidos e questionados com respeito e igualdade. Grace não perguntou aos negros se eles queriam mudar o sistema da fazenda, apenas impôs por meio da força e da demagogia que a sua democracia era o modelo que eles deveriam adotar na fazenda; quando ocorre o inverso, Grace rejeita a oferta dos negros por achá-la absurda e por fazê-la prisioneira do modelo de Manderlay.
Aqui o filme robustece necessidade das lutas sociais, pois, não adianta Grace tirar os detritos dos olhos dos negros, inicialmente ela deve tirar o seu e deixar que os próprios tirem o seu cisco, já que, só lutando é que se muda de paradigma social. Sendo assim, apesar de Manderlay ser inferior a Dogville, trata-se de um filme eficiente em seus diálogos e condução, pois, Lars Von Tries é sem sombra de duvidas um dos poucos diretores atuais capazes de ousar, produzindo diálogos inteligentes com os seus personagens, acabando por ter uma direção próxima do brilhantismo não reconhecido pela maioria dos espectadores comerciais.
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