"As Chaves de Casa"

Se nós fossemos pai de um filho com deficiência, e tivéssemos o abandonado logo após o seu nascimento, como interagiríamos num suposto reencontro? E se o reencontro se realizasse quinze anos depois e a criança nem nos reconhecesse como pai? O que fazer? O que sentir? Amar? Odiar? Ou simplesmente ignorar a existência dessa criança? É sobre a tríade Pai, Filho e Diferenças que o filme “As Chaves da Casa”, de Gianni Amélio (2004), nos faz refletir.

O Filme inicia com Gianni (Kim Rossi Stuart) tendo que levar o filho Paolo (Andrea Rossi) para Berlim afim de realizar um tratamento, pois, este não estava tendo efeito sobre o jovem sem a presença do pai. É como se houvesse uma necessidade de uma relação entre filho e pai (que nunca existiu) para a realização da terapêutica. Ao chegar a Berlim, Gianni, que se encontra carregado de preconceitos pelo jovem, surpreende-se ao saber que pode gostar do filho mesmo com limitações que lhe são apresentadas, ainda assim, Gianni tenta lutar contra este novo sentimento ao ponto de recusar a paternidade de Paolo quando indagado por Nicole (Charlotte Rampling).

A dificuldade de Gianni (e bem que poderia ser nossa) em aceitar um filho com deficiência pode ser diversa, mas ressaltarei apenas duas neste blog. A primeira é a morte da esposa (mãe de Paolo) durante o parto e a constatação via médico de que o filho haveria de ter seqüelas quando crescesse, estes fatores o levaram a um ódio pelo menino, ao ponto dele nem sequer ir ver a criança no berçário; a cardinal implicação desse ato impensado foi o estranhamento entre os pares, nem Gianni e nem Paolo se reconhecem como Pai e Filho durante o inicio da trama (mesmo que já tivessem falado a Paolo que seu Pai o viria buscar). A segunda dificuldade, que para mim é a capital, remete ao medo de suas limitações para cuidar de Paolo, Gianni não consegue viver das incertezas, não consegue perceber que apenas o tempo fará com que ele apreenda a lidar com as diferenças, não consegue refletir que o problema não se encontra em Paolo, mas em Gianni. O filme deixa claro em seu início que assumir responsabilidade por levar Paolo ao tratamento não foi fruto do amor pelo filho, mas “dor na consciência” pela sua atitude, assim, Gianni acredita que se encontra fazendo um favor ao jovem deficiente. É essa sensação que torna mais difícil a mudança de concepção de valores do Pai, pois, é apenas refletindo os nossos atos que poderemos nos (trans)formar enquanto humanos.

É sob esta idéia que percebo as minhas (e pode ser sua) limitações para lidar com os diferentes, não se trata apenas de deficientes, mas de qualquer outra pessoa que pense diferente de mim; abrigar o diferente é aceitar as incertezas e dar voz ao que estava adormecido pelos meus valores, é por isso que aparentemente é mais difícil cuidar de Paolo do que de Francesco (filho recém nascido de Gianni), mas ambos são diferentes, ambos darão trabalho para o pai pelo resto de suas vidas, pois, pai sempre achará que terá responsabilidade pelo seu filho.

Outro aspecto que me chamou a atenção no filme foi o Pai exercendo o trabalho de levar filho deficiente ao hospital. Nicole, em conversa com Gianni, ressalta que “os homens costumam a dar o trabalho porco para ser realizado pelas mães, os pais procuram se abster da sua responsabilidade com os filhos”; em uma sociedade ainda machista, mas que se encontra em mudança, não é de estranhar um pai cuidando do filho, entretanto, de um filho com deficiência você já viu quantos? Nesta acepção, acredito que o papel desempenhado socialmente pelo homem e pela mulher encontra-se em crise; na atual conjectura social não é possível aceitar situações de responsabilidade do casal se tornar empreitada de apenas um; homens e mulheres devem apreender a dispor de seu tempo para estarem com os seus filhos, apreendendo e os ensinando a serem humanos.

Enfim posso dizer que, “As Chaves da Casa” trata-se de um filme ímpar, pois, diferente dos melodramas estadunidenses com finais felizes, aqui o final é incerto e propõe reflexão sobre mudanças em nossas subjetividades e identidades, mais que isso, nos propõe que é preciso (e que devemos) aceitar e confiar nas diferenças; temos que apreender a dar as chaves para a diversidade adentrar a nossa casa. Por fim deixou duas perguntas para você leitor e leitora, qual a importância da diferenças na sua constituição como humano? Você daria as chaves para a incerteza? Até a próxima!

Dica para DVD:

Nome: Match Point – Ponto Final

Direção: Woody Allen

Ano: 2005

 

  

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