CACHÊ - É PRECISO VER E REFLETIR

“Cachê” de Michel Haneke é um filme impar para o espectador, uma vez que, com imagens quase congeladas e poucos cortes (a edição é muito diferente das produções estadunidenses) mantém o interesse do público em compreender a trama estabelecida pelo diretor. A abertura do filme transgride por alimentar a câmera estática por extensos minutos (coisa rara no cinema atual); naquele momento o diretor estabelece que “você espectador é o observador da privacidade dos Laurent. É a você que será revelado os segredos e omissões de uma história de vida”.

É deste modo, que somos levados a conhecer os arcanos da vida de Georges Laurent; seus preconceitos começam a ser desvendados ao receber o segundo envelope contendo a fita e o desenho de uma criança cuspindo sangue, neste momento ele estabelece quem poderia ser o possível terrorista. A visita a casa de sua mãe (devido a chegada da terceira fita) nos leva a identificar a presença de uma “tragédia” na vida de Georges envolvendo um nome: Majid (nome de imigrante), mas qual drama teria ocorrido na infância? Este segredo começa a ser desvendado no inicio da trama, tendo como estopim a chegada das correspondências “terroristas”.

É sob a égide da lente de Haneke que passamos a conhecer a farsa estabelecia por Georges; este que parecia distinto aos nossos olhos, passa a ser visto como um caluniador e pior sem consciência das conseqüências dos seus atos para com os outros humanos. Coloco humanos, pois, o filme nos retrata a partir da perspectiva de um cidadão francês questões como intolerância, o fascismo e a xenofobia. Para Michel estes valores estão presentes nas pessoas (para o diretor em especial nos franceses), mas não os assumimos por medo, pela necessidade de conservarmos a aparência; como bem destaca o produtor do programa de Georges, em um diálogo com este, sobre a necessidade de omitir os conteúdos da fita. É esta a razão do diretor nos mostrar, mais de uma vez na TV, a violência em que se encontra o mundo pela intolerância entre povos diferentes.

Caché trata da falta de reflexão humana, muitas vezes não nos damos conta que nossas atitudes são reflexos dos valores da sociedade. Os nossos estereótipos e preconceitos de gênero e raça são internalizados por nós, que inconscientemente, acabamos determinando o futuro das pessoas que nos cercam, podendo ou não, reproduzir as desigualdades e o preconceito em nossa sociedade. É sob estas idéias que o autor/diretor deseja que saiamos da inércia para passarmos a refletir nossas condutas para com os outros.

 

 

 

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